Foto: Vicente Arrifes
Sabe, ela disse, para tudo na vida há de ter uma razão.
Parou num dia destes em que o céu é igualzinho o alto mar, sem espumas brancas revoltas, infinitamente azul e incansavelmente eterno olhou para ele respirando o mais leve e puro ar e perguntou a si mesma: "para quê essa imensidão toda?".
Não poderia explicar como, mas dentre tantas perguntas a serem feitas, somente essa tirava da sua alma uma angústia curiosa, um completo vazio cheio de inquietações.
O porquê de estar aqui.
Sem perder a ternura, saiu de baixo da sombra da árvore e observou o horizonte, lá longe, sozinha também do resto do mundo. O horizonte também não tinha fim. Pensou em como seria o mundo sem as imagens de satélites, em como ele seria muito mais imaginado e por isso mais tranquilo, mais leve e por que não, mais bonito. Pensou em sua enorme insignificância diante da vida, e o pior, o quanto conseguia ser quase nada comparado ao peixe, que sabe viver debaixo d'água, e ao pássaro amarelo, que sabia voar, e que pairava naquele mesmo instante ao lado dela:
-Você sabe a diferença de infinito e eterno?
Pensou em silêncio que essa pergunta fosse mais uma que saíra da sua curiosa inquietação e tornou a olhar o horizonte.
-Você sabe a diferença de infinito e eterno?
A voz vinha de longe, e talvez por isso pensasse que estaria ficando louca.
Hoje não. Não estou preparada. E adiou a conversa com a natureza para depois de uma longa noite de sono...