Pesquisar este blog

domingo, 3 de abril de 2011

Sobre a volta e calças de moletom.

Peguei o trem querendo fugir da chuva e do frio. Acompanhavam-me pessoas que voltavam tarde de um longo dia de trabalho, com angústias e aflições aparentes que sei que gostariam de compartilhar com alguém, um ser, um cão, uma parede qualquer, que seja, o fato é que é sempre preciso desabafar.
Lá sentada, fiquei pensando em como você odiaria ouvir meus infortúnios. Odiaria saber dos perigos que passei naquele dia especialmente difícil, apesar de não saber exatamente o porquê de sua especialidade. Aquele dia foi diferente.
Ainda no trem, irritada pelo ar condicionado que insistia em bagunçar meus cabelos e desnecessário em meio aquele frio, pensei por causa disso o quanto você tinha razão. Eu gosto mesmo de reclamar de qualquer coisa, pois se o ar condicionado existisse, me irritaria ele bagunçar meu cabelo, e se não existisse, me irritaria o suor que nasceria entre os mesmos cabelos, enfim, isto tudo para provar o quanto eu sou constantemente insatisfeita com qualquer merda que seja. Você se estivesse do meu lado naquela hora, com certeza falaria isso.
E talvez se eu soubesse disso antes, as coisas entre nós seriam um pouco mais fáceis. Eu me conformaria com o seu cabelo sempre bagunçado e com o fato de você nunca passar fio dental antes de escovar os dentes. Até mesmo se eu relevasse sua preguiça de escová-los antes de dormir. Tudo isso somado com uma lista enorme seria pouco, muito pouco perto de todo o resto que você tinha a me oferecer.
É que lá na hora, olhando fundo nos seus olhos, eu me perdi um pouco entre os sonhos que eu sempre tive e o que você quis me dar pra sempre. Naquele momento quis seguir um sonho por pura teimosia, por não querer aceitar que os sonhos nunca envelhecem. Para mim, meus sonhos já tinham rugas e imploravam por imediatas realizações, me pressionavam para que eu lutasse por eles.
Olhando-me pelo reflexo da janela do trem, pensei que talvez eu fosse a primeira pessoa a ser traída por seus próprios sonhos. Pensei inclusive na legitimidade deles como sonhos. Não mereciam receber esse nome.
Mas nada disso poderia ser justificativa plausível para que seus olhos voltassem a me enxergar. Eu também não esperava que você acreditasse em toda essa história de sonhos, de escova de dente e de fio dental, mas era isso o que estava passando aqui dentro, e eu apenas torcia para que você acreditasse em mim.
E se eu tivesse ficado, seria diferente? Essa frase do Caio Fernando simplesmente me perseguiu a viagem inteira, como um monstro em meus já medrosos pensamentos.
Tentando respondê-la, acredito que sim. Seria mais difícil, mas mais feliz. Isso me fez entender como nós somos criadores de nossas próprias vidas e conceitos, e que essas imagens prontas que nos trazem à mesa são totalmente fajutas e não passam de conceitos próprios das pessoas que o idealizaram.
Tudo isso para explicar que apesar de ser difícil eu seria feliz. E basta eu ter este conceito em mente para não precisar criar nenhum impecílio a mais contra nossa felicidade.
Então saí do trem e peguei o primeiro táxi que me apareceu. Disse o seu endereço e em uma hora estava na porta de sua casa. O taxista pareceu entender do que se tratava e não disse nada sobre o fato de eu não me mover para fora do carro. Eu apenas osbervava a chuva invadindo a janela aberta do seu quarto, e por trás das cortinas dele, eu via sua sombra. Ter visto sua sombra foi pior do que ver o seu rosto, pois apenas tentava decifrar sua expressão e isso me fazia imaginar um milhão de coisas.
Paguei o táxi e quando pedi para ele esperar, já era tarde. Só havia eu na frente da sua porta, e aqui estou, após apertar a campainha e ver você me receber com a mesma camiseta velha e calça de moletom de noites chuvosas como essa.
Peço que ao entrar em sua casa, entre também em sua vida, tenho inclusive uma calça de moletom aqui na bolsa e sei que elas fariam um belo par.