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terça-feira, 22 de maio de 2012

Samir


Palavras são expressões de nosso estado de espírito. Quando pronunciamos uma palavra, denunciamos ali nossos mais sinceros entendimentos inconscientes sobre a vida, sobre a história do mundo, sobre nossos sentimentos.
Por isso que num dia frio como este de maio, numa semana como essa que vem se arrastando durante horas, as palavras aqui eleitas fossem diferentes daquelas que escolheria caso fevereiro não estivesse passado, o Kaozinho estivesse bem de saúde, se essa semana tivesse sido um pouco mais light pra mim, ou principalmente se eu tivesse você aqui ao meu lado.
Porque o fato é que uma hora todos nós sucumbimos pra um lado ou pro outro, até mesmo para saber da existência dos diferentes pontos de vista da vida, entendendo que não se passa de mera vista de um ponto...
Primeiro: está muito frio aqui. Eu não sei para os outros, mas para mim esse outono entrou alastrando todo calor que tinha no meu coração. Eu sinto ele bater mais rígido, pra sobreviver a este frio precoce de um ano bizarro de nossas vidas (ou pelo menos para o calendário Maia).
Segundo: O Kaozinho está mal. E isso nunca aconteceu. Estamos aqui totalmente desolados, sustentados unicamente pela nossa fé. Fé na sua melhora. Que a vida ajude nosso amigo. Amigo verdadeiro.
Terceiro: A vó está com 87 anos, e este ano começo a olhar para ela tão frágil, tão meiga, tão doce, tão serena, tão carinhosa... Meu olhar começa a ser de alguém que já precisa cuidar daquela que um dia cuidou de mim. Esse detalhe é sutil e singelo, porém, tão significativo...
Quarto: Eu vejo a vida acontecer como um dia de domingo. Sim, pois foi justamente num domingo quando sentei aqui na varanda com o pai e a mãe, divindo petiscos da pizza amanhecida e nos aquecendo de vinho, Belchior, Secos e Molhados, Beto e Milton e fazendo pratos cheios de macarronada da Vó com queijo fresco. Foi ali que percebi onde a vida reside, onde a felicidade é encontrada, e quando me sinto confortável no mundo, quando estou perto de quem amo.
Quinto: foi então que, inevitavelmente, senti(mos) muito a sua falta, bebê. Você é parte integrante deste sistema, eu digo deste sistema aqui que vivemos há algumas boas existências espirituais.Chegou a hora em que percebemos o quanto estamos sofrendo sem você, vendo a vida passar tão rápida e frágil, sem controle e sem juízo, tendo como único sustentáculo a já insuficiente certeza de que estamos ligados por algo maior. Eu tenho essa certeza, e coisa e tal, e tal e coisa....Mas, sabe?????
Sexto: e hoje é seu aniversário!! 27 anos, muitas histórias pra contar, e muitas ainda a serem construídas. Das 20 vezes que vivenciei o dia 22 de maio, 4 vezes me encontrei na mesma situação catastrófica de ter que escrever por meio deste teclado o quanto eu gostaria de te dar um abraço, de ter você aqui com a gente, porque é esse sentimento, por mais egoísta que seja, que temos quando amamos alguém.
E fora isso, eu desejo (porque é natural desejar isso a alguém como você, Sam), eu desejo que você seja a pessoa mais feliz desse Mundo!
Porque merece. E merece porque é do bem. E é do bem porque é íntegro, e é íntegro porque é justo, é sensato, é inteligente, é amigo, é fiel, é parceiro, é meu irmão, professor, companheiro de infinitas jornadas, meu porto seguro que desembarcou no meu lugar, um pouco longe da terra das índias..

Muita luz no seu caminho, e parabéns por ser este homem que é, irmão. Feliz aniversário...
"A saudade bateu no coração..."

sexta-feira, 27 de abril de 2012


G r a t i d ã o

Talvez seja esta a palavra que mais se aproxime da sensação quase física que se tem ao vivenciar a felicidade deste sentimento que só se sente, não se explica.
Na verdade, não é um mero sentimento. É algo que ultrapassa as barreiras existenciais humanas, tocando de leve a nossa alma e deixando claro que há uma razão por de trás de todo o nosso viver.
É uma magia que, uma vez descoberta, toma conta de todo nosso querer, afastando o medo, que é o principal sentimento que nos afasta de Deus.
É uma sensação de que o agora é o que se vive, e a vida é a soma de infinitos presentes assim experimentados. 
A gratidão é o sentimento que se tem em razão deste sentimento, sendo gratidão tudo aquilo o que você pode ter antes, durante e após os segundos da vida. Porque se tem a vida. Porque se é feliz, não só pelas alegrias e pelos prazeres, mas também pelas dores, pelos obstáculos, pelos tortuosos caminhos que estiveram com você para formar o seu espírito, e consequente evolução.
Sente-se isso quando, ignorados os supérfluos aprisionamentos da mente, face à (tantas vezes dura) realidade da sociedade em que vivemos, entendemos sermos mais que seres humanos, na medida em que somos seres de luz.
Ao compreender a transitoriedade da existência, a razão pela qual aqui estamos, e tantas outras inquietudes do ser - desde por que o céu é azul, até por que passo por tantas provas e lutas - tudo começa a fazer sentido, as horas valem a pena e o acaso não existe.
Enfim, inultimente tentaria explicar este sentimento, se é que é sentimento. Suspeito que isso se simpatiza com o pensamento Taoísta.
Nas línguas portuguesa e japonesa, a gratidão é expressa por respectivamente "obrigado" e "arigatô". Etimologicamente, conclui-se a partir de pensamentos de Tomás de Aquino que tais expressões referem-se ao terceiro (e mais profundo e verdadeiro) aspecto da palavra, vez que estabelecem uma relação de dívida (obrigação) entre o agraciado e o benfeitor, esclarecendo que a partir da graça recebida, torna-se difícil viver (arigatô), já que será sempre impossível - não obstante o comprometimento eterno de tentar - retribuir no mesmo nível a graça concedida.
E com uma alegria imensa na alma, um entusiasmo incrível que vem de dentro e voa para fora, nada consegue explicar tudo isso senão um “muito obrigada” e, tentando eternamente retribuir, comprometo-me a ser sempre um instrumento do bem, do amor e da paz...

E meu corpo queima, e meu espírito voa...

domingo, 3 de abril de 2011

Sobre a volta e calças de moletom.

Peguei o trem querendo fugir da chuva e do frio. Acompanhavam-me pessoas que voltavam tarde de um longo dia de trabalho, com angústias e aflições aparentes que sei que gostariam de compartilhar com alguém, um ser, um cão, uma parede qualquer, que seja, o fato é que é sempre preciso desabafar.
Lá sentada, fiquei pensando em como você odiaria ouvir meus infortúnios. Odiaria saber dos perigos que passei naquele dia especialmente difícil, apesar de não saber exatamente o porquê de sua especialidade. Aquele dia foi diferente.
Ainda no trem, irritada pelo ar condicionado que insistia em bagunçar meus cabelos e desnecessário em meio aquele frio, pensei por causa disso o quanto você tinha razão. Eu gosto mesmo de reclamar de qualquer coisa, pois se o ar condicionado existisse, me irritaria ele bagunçar meu cabelo, e se não existisse, me irritaria o suor que nasceria entre os mesmos cabelos, enfim, isto tudo para provar o quanto eu sou constantemente insatisfeita com qualquer merda que seja. Você se estivesse do meu lado naquela hora, com certeza falaria isso.
E talvez se eu soubesse disso antes, as coisas entre nós seriam um pouco mais fáceis. Eu me conformaria com o seu cabelo sempre bagunçado e com o fato de você nunca passar fio dental antes de escovar os dentes. Até mesmo se eu relevasse sua preguiça de escová-los antes de dormir. Tudo isso somado com uma lista enorme seria pouco, muito pouco perto de todo o resto que você tinha a me oferecer.
É que lá na hora, olhando fundo nos seus olhos, eu me perdi um pouco entre os sonhos que eu sempre tive e o que você quis me dar pra sempre. Naquele momento quis seguir um sonho por pura teimosia, por não querer aceitar que os sonhos nunca envelhecem. Para mim, meus sonhos já tinham rugas e imploravam por imediatas realizações, me pressionavam para que eu lutasse por eles.
Olhando-me pelo reflexo da janela do trem, pensei que talvez eu fosse a primeira pessoa a ser traída por seus próprios sonhos. Pensei inclusive na legitimidade deles como sonhos. Não mereciam receber esse nome.
Mas nada disso poderia ser justificativa plausível para que seus olhos voltassem a me enxergar. Eu também não esperava que você acreditasse em toda essa história de sonhos, de escova de dente e de fio dental, mas era isso o que estava passando aqui dentro, e eu apenas torcia para que você acreditasse em mim.
E se eu tivesse ficado, seria diferente? Essa frase do Caio Fernando simplesmente me perseguiu a viagem inteira, como um monstro em meus já medrosos pensamentos.
Tentando respondê-la, acredito que sim. Seria mais difícil, mas mais feliz. Isso me fez entender como nós somos criadores de nossas próprias vidas e conceitos, e que essas imagens prontas que nos trazem à mesa são totalmente fajutas e não passam de conceitos próprios das pessoas que o idealizaram.
Tudo isso para explicar que apesar de ser difícil eu seria feliz. E basta eu ter este conceito em mente para não precisar criar nenhum impecílio a mais contra nossa felicidade.
Então saí do trem e peguei o primeiro táxi que me apareceu. Disse o seu endereço e em uma hora estava na porta de sua casa. O taxista pareceu entender do que se tratava e não disse nada sobre o fato de eu não me mover para fora do carro. Eu apenas osbervava a chuva invadindo a janela aberta do seu quarto, e por trás das cortinas dele, eu via sua sombra. Ter visto sua sombra foi pior do que ver o seu rosto, pois apenas tentava decifrar sua expressão e isso me fazia imaginar um milhão de coisas.
Paguei o táxi e quando pedi para ele esperar, já era tarde. Só havia eu na frente da sua porta, e aqui estou, após apertar a campainha e ver você me receber com a mesma camiseta velha e calça de moletom de noites chuvosas como essa.
Peço que ao entrar em sua casa, entre também em sua vida, tenho inclusive uma calça de moletom aqui na bolsa e sei que elas fariam um belo par.

sexta-feira, 18 de março de 2011

E se não tivesse o amor...

E se não tivesse o chorar?

E se não tivesse essa dor?
É que às vezes essa troca ilógica de papéis acontece mais do que o normal. Como se a vida fosse feita de eternos paradoxos, constantes e inevitáveis, que agarram em nós a eterna curiosidade do saber.
Saber ser dor.
Saber ser amor.
É isso o que faz um ser que vive de seus sentimentos: procurar, dentro de si e de mais ninguém, saciar a sede dessas duas fontes. Sim. Fontes que têm sede, são as mesmas que nos alimentam.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

o que eu falaria para Ele.

Que todo dia seja digno de entrar para a história. Que a cada momento inovemos, buscando para a humanidade uma saída! Que consigamos conquistar novas fontes de inspiração, seja na poesia, na música, no palco ou nas imagens... Seja no amor.
Façamos o nosso melhor e que esse melhor seja superado a cada instante pela ânsia dos sonhos e da esperança.
Esperança! Se não for a única que resta, é pelo menos a que sempre deve nos acompanhar, junto com o primordial incentivo: o de ser feliz! E é assim que devemos agir, com o bem no coração, nos gestos, nas palavras, com o olhar sereno e a fala mansa, com a face sempre mais que risonha. Sem esquecer da espinha ereta e o coração tranquilo.
Em tempos difíceis (ou não), é bom saber que nada é por acaso e que se não há nada melhor no fim, há pelo menos o aprendizado, a força para a próxima jornada.
Ah, vida, por que te tenho, não sei, mas sei que me tens e que é para sempre e é desse jeito que farei o meu melhor.
Agradecer. Pela família que amo, pelos amigos que me acompanham, pelos amores encantados, pelo sorriso agora estampado, porque há chocolate e faz rir, porque há chuchu e não engorda, porque há caneta e um papel. E alguém para ler.

Mania de história


É só essa vontade de escrever. Supérfulo e egocêntrico sentimento de ficar divagando sobre si ou sobre o além. Mas sentimentos que vêm de dentro.
Poderia se falar do amor, da questão relativa e insensata do ser amante. Amamos e ponto, o verbo é intransitivo, pensou bem meu querido Mário de Andrade. Mas amamos a ideia de estar amando, como dizia Platão. Move-nos a ideia de estar protagonizando um filme, uma linda historia. 
O que Shakespeare e Caio Fernando Abreu não fizeram com nossa mente. Amar até a negação de amar, ainda que dôa. A palavra aqui não é doação, não... é doer mesmo. 
É sempre preciso uma dose a mais, de qualquer bebida forte que seja, para percebemos que o nosso bem-estar deve ser construído para a felicidade e que ela é o fundamento último dessa nossa experiência. A felicidade aristotélica de todos os dias. O álcool entra em nossa garganta e sobe direto para o cérebro, clareando esse acontecimento óbvio da natureza humana, de que o importante mesmo, é ser feliz.
Mas eis que vem o dia seguinte nos acordando com a ressaca braba e carrega Aristóteles pra lá. 
E assim, lá se vai mais um dia..

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

História de Maria...

                                                                                                                                   Foto: Vicente Arrifes

Sabe, ela disse, para tudo na vida há de ter uma razão.
Parou num dia destes em que o céu é igualzinho o alto mar, sem espumas brancas revoltas, infinitamente azul e incansavelmente eterno olhou para ele respirando o mais leve e puro ar e perguntou a si mesma: "para quê essa imensidão toda?".
Não poderia explicar como, mas dentre tantas perguntas a serem feitas, somente essa tirava da sua alma uma angústia curiosa, um completo vazio cheio de inquietações.
O porquê de estar aqui.
Sem perder a ternura, saiu de baixo da sombra da árvore e observou o horizonte, lá longe, sozinha também do resto do mundo. O horizonte também não tinha fim. Pensou em como seria o mundo sem as imagens de satélites, em como ele seria muito mais imaginado e por isso mais tranquilo, mais leve e por que não, mais bonito. Pensou em sua enorme insignificância diante da vida, e o pior, o quanto conseguia ser quase nada comparado ao peixe, que sabe viver debaixo d'água, e ao pássaro amarelo, que sabia voar, e que pairava naquele mesmo instante ao lado dela:
-Você sabe a diferença de infinito e eterno?
Pensou em silêncio que essa pergunta fosse mais uma que saíra da sua curiosa inquietação e tornou a olhar o horizonte.
-Você sabe a diferença de infinito e eterno?
A voz vinha de longe, e talvez por isso pensasse que estaria ficando louca.
Hoje não. Não estou preparada. E adiou a conversa com a natureza para depois de uma longa noite de sono...